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sexta-feira, 6 de fevereiro de 2026

Femininas

 Levanto a cabeça e reconheço outra feminina, igual em tudo na vida, na mesma rotina ingrata que a custo se equilibra sob as mesmas pilastras finas. O mesmo ventre que incha e sangra a cada tantos dias.


Meu nome é mãe, eu tenho outro de pia, mas os que me importam me chamam de mãe, muitas vezes por dia, como há muitas mães, como santo em romaria, me chamam muito de mãe da minha filha.


No olhar da outra, vejo a alegria de quem sai até o raiar do dia, nos olhos pintados, a harmonia de quem é dona de toda sua energia. Dos belos saltos, a nostagia de dias de muito mais euforia.


Sigo em frente e logo vejo outra das nossas. Minissaia e salto quinze, que agonia,

além disso, outra mais com silicone, preenchimento e sem muita anestesia,

Outra ainda já murchinha, abatida da labuta. Uma branca, uma negra, uma amarela e até mesmo uma freira e uma puta.


Somos muitas femininas, pouco diferentes em quase tudo na vida e por isso morremos da mesma morte:

de velhice antes dos vinte - somos sempre velhas demais,

de emboscada antes dos trinta - a violência sempre nos ronda,

de tristeza um pouco por dia.

quinta-feira, 29 de janeiro de 2026

Teste genético


Nem tão índio que um cocar não pareça fantasia, 

Nem tão negro que um turbante não pareça apropriação cultural,

Nem tão europeu que ganhe um visto.

Filho de da Silva com da Rosa, tão brasileiro quanto invisível.

quinta-feira, 21 de agosto de 2025

MEU vÔ

 Minhas lembranças mais antigas sentem a presença dele. Numa dela estamos de mãos dadas colhendo gramas para nosso (a casa era dele, mas nunca senti assim) jardim. Na outra, estou andando quando meus pés começam a voar e de repente estou em sua garupa. Provavelmente tenho uns 3 anos nesses momentos. 

Passei boa parte da minha vida com ele. Aprendi a cuidar de mim e a ser cuidada, a ganhar bergamota na boca para não ficar com cheiro, a amar o mar e a temê-lo.

Com ele aprendi que preciso de sol e água salgada e um pouquinho de estrada também. Aprendi a valorizar uma boa partida de futebol e a sofrer pelo Grêmio (hoje muito menos). 

De lá para cá ele me legou muito do que sou hoje e é meu referencial de pai, de marido, de homem de família, de vô. Ele ensinou fazendo o que é exemplo de homem. 

Nunca vou estar pronta para perdê-lo, consigo sentir seu cheiro e ainda ouvir aquele tE amO com o jeitinho dele falar, mas, se for agora, só posso parafrasear meu tio e dizer “foi um prazer viver contigo”. É um orgulho ser tua neta e tu vai morar sempre no meu coração. Espero que a partir de agora tu saiba, como talvez vivo nem sempre soubesse, que eu penso em ti todo dia, que cito uma das tuas frases quase sempre e que tu vive em mim.


sábado, 1 de janeiro de 2022

Sabedoria

De repente pareço experimentar de um tipo de sabedoria a qual não tinha acesso antes, parece que a maturidade vem aos saltos, depois de períodos cinzas, sobre assuntos aleatórios como os mistérios da vida ou as fofocas de antigamente (o tempo nos faz ver com clareza e dar as coisas as dimensões que elas têm).

Parece que minha avó anda a soprar- me coisas de um entendimento de outra dimensão ou talvez seja a falta dela me fazendo repensar tudo que vivi até aqui. Me fazendo lembrar de novo (esse blog está aqui para provar que sempre celebrei a vida dela) do caminho todo que ela trilhou e me sentir privilegiada, pois ela arrumou o meu caminho e por isso foi bem mais suave que o dela.

Minha avó não era das palavras bonitas, nem dos gestos posados. Ela era linda e autêntica e sempre que precisava escolher entre a beleza ou a verdade, ficava com a verdade.

Foi estranho notar que ela vivia voltada para a família mais próxima, dizia que ter muitos amigos gastava muita energia e dinheiro. Entretanto nunca vi idosos tão cheios de amigos. Lá na beirinha de seu túmulo, estava sua querida colega de faculdade, general como ela, comandando a colocação do caixão. A casa da praia sempre cheia, o apartamento com visita todo santo dia (até os vizinhos jovem iam visitá-los com frequência para ganhar conselhos, falar das notícias e do futebol) e o telefone sempre tocando (e ela falava 2 minutos e dava tchau).

Concluí que ela colocava realmente a energia necessária para manutenção de uma amizade, por isso sabia o quanto era "caro" manter um amigo. Você pode pensar que ela pagasse seus amigos, mas ela nunca deu dinheiro aos amigos (nem para os netos que não era muito seu feitio). Embora ela sempre fizesse as contas de quanto gastaria ao ser convidada para uma festa (viagem, roupa, cabeleireiro, presente), sempre esteve presente, linda e sorridente. As contas, ela dizia para nós (acho que seus amigos nunca souberam, mas também não duvido), para nos ensinar a investir onde era preciso. 

Outro ensinamento que ela nunca disse, mas mostrou bem foi que as pessoas de verdade, gostam mesmo de autenticidade e não de adulação. Ela não era de presentes (até repreendia quem nos desse, não era à toa que a Dinha nos dava coisas e dizia para não contar para vó), nem de elogios públicos. Ela criticava pouco, mas bem e bem na nossa cara. Dos outros falava pouco e julgava menos ainda, deixava os julgamentos para os personagens da novela e os jogadores de futebol. 

Até o fim foi rodeada de muitos amigos de verdade, da família próxima e da família adotada. Que estavam lá, pois gostavam dela e admiravam seu jeito generoso de distribuir amor.

Não gosto de poesia

 Não gosto de poesia.

É só um jogo para os homens mostrarem seu poder sobre a linguagem,

Eu gosto é da palavra viva, dita para comunicar ao outro, para revelar os segredos e não encobri-los.

Embora toda língua seja frágil para transmitir os mistérios do amor e da sabedoria, ainda há algo que se possa dizer, só o tempo vai te contar e talvez aí tu saibas que pouco adianta tentar repetir coisas que só a experiência vai te trazer e só a língua do amor consegue exprimir.